Pegar no pé é profissão
Junho 9, 2008
Irene tem 33 anos e há 9 vive pegando no pé dos outros. Ela sempre liga pra cobrar “eai, vai fazer essa semana?”. Às vezes chega a irritar, “pó, se eu quiser, eu ligo!”. Mas é que ela pega mais no nosso pé do que nós mesmos. Literalmente. Irene é manicure e pedicure há quase uma década – e sempre mostrou se importar não só com a beleza, mas também com a saúde dos pés de suas clientes e com um bem estar que, se começa na base, se alastra pelo resto do corpo.
A profissão de pedicure apareceu no caminho de Irene mais como necessidade do que como opção. Como boa parte das manicures e pedicures que eu conheço, descobriu o “dom” ao fazer a unha de amigas, vizinhas e a sua própria. Depois de um ano desempregada, acabou pegando no pé de conhecidas do bairro para ganhar seu sustento. Mais do que pagar as contas, Irene gostou da profissão.
Sua vontade era fazer o curso de Técnico em Podologia do Senac, que é profissionalizante e ensina a cuidar dos pés de forma mais abrangente, englobando problemas, doenças, postura e sua importância na área da Saúde, além de atendimento e até como abrir e gerir seu próprio negócio. Ela poderia fazer muito mais do que tirar cutículas e pintar a unha de forma impecável.
Mas a grana não deu. Irene não se lembra quanto custava o curso na época, mas hoje a mensalidade é de R$6.615,00 para os 17 meses de aulas. E continua caro para ela (quem dirá então fazer o curso superior de dois anos da Universidade Anhembi Morumbi, criado esse ano e cuja mensalidade custa R$677,00). Então, Irene fez um curso de curta duração e gratuito no Ikesaki, empresa que fornece produtos de beleza, materiais para clínicas de estética e oferece alguns cursos de tempos em tempos.
Pode parecer um martírio ter que cuidar de uma parte do corpo que muitas pessoas rejeitam, seja por causa da aparência, seja pelas micoses, frieiras, joanetes, calos, unhas encravadas, calcanhares rachados e o famigerado chulé que possam vir no pacote. Mas Irene diz gostar muito do que faz. “Eu não tenho patrão para ficar na minha orelha dizendo blá blá blá”, diz ela, como se sua mão fosse a boca do chefe chato que não pára de falar na orelha. “E a maior parte das minhas clientes são pessoas muito bacanas”.
E é com o dinheiro de muitas mãos e pés – agora bem cuidados – que Irene sustenta seus dois filhos pequenos e parte dos gastos da casa, que ela divide com o companheiro. Todo dia ela faz tudo sempre igual. Sobe na bicicleta rosa munida da sua nécessaire e pedala até a casa da cliente para voltar com R$13 no bolso pelo serviço completo. Só deixa a rotina quando os filhos adoecem. E segue a vida assim, batalhando, colorindo mãos e pés por aí – mas nos dela, nada de esmalte.
Por Aline Moraes
Entry Filed under: Profissão, saúde. Tags: bem estar, cuidado, curso técnico, manicure, pé, pés, pedicure, Podologia, Profissão, saúde.
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1.
luciane | Setembro 18, 2008 at 3:16 pm
Me identifiquei muito com esta matéria, adoro fazer unha, fiz um curso basicão, mas agora pretendo fazer um bom e seguir com esta profissão e se Deus quiser, fazer um curso de podologia. Não tem nada que pague a gente ser livre, sem patrão enchendo o saco.
Bjs.