Pés calçados, calcados
Junho 16, 2008
Você usa sapato por quê? Quem disser que é para proteger os pés, não deu uma resposta muito honesta. Sim, essa é a função primária e essencial de um calçado, mas não é nisso que pensamos ao escolher um antes de sair de casa, senão colocaríamos qualquer coisa no pé, desde que o protegesse.
A diferença entre “qualquer coisa” e um determinado calçado remonta à função social que ele teve ao longo da História – e que se perpetua hoje, mesmo que a gente não se dê conta disso. Sapato é adorno, sinal de identidade, de beleza, de status, de poder. E, sobretudo, de pertencimento.
Registros históricos mostram que, no Egito antigo, apenas os nobres usavam calçados – sandálias de couro e, no caso de Faraós, adornadas com ouro. Entre os gregos antigos, não se usava sandálias dentro de casa, mas, em público, eram indispensáveis. Para a sociedade da Roma antiga, os modelos e as cores de sapatos faziam a distinção social. E na tradição anglo-saxã, durante o casamento, o pai da noiva entregava ao noivo um pé do sapato da filha, como símbolo da transferência de autoridade.
Há algumas semanas atrás, a campainha de casa tocou na hora da janta e minha mãe foi atender. Havia duas crianças no portão pedindo comida. Minha mãe voltou à cozinha e, indignada, disse algo como “meu Deus… aquelas crianças estão descalças!”. Ela buscou no armário dois pares de havaianas e ficou satisfeita ao ver que tinha um vermelho e um azul, já que havia um menino e uma menina no portão esperando – a comida.
A impressão que tive foi de que a imagem das crianças sem nada no pé mexeu muito mais com a minha mãe do que o fato de estarem sem nada pra comer. É como se pedir comida calçado mostrasse que a situação não está tão ruim assim. Pés descalços (involuntariamente, claro) seriam o limite.
Assim eram no Brasil colônia, quando escravos não usavam sapato, eram proibidos. Quando conseguiam a liberdade, compravam um par, mais como símbolo de uma nova condição social – muitos não se acostumavam a usar e aí, carregavam o sapato, como um verdadeiro troféu.
Não acredito que alguém numa condição difícil deixaria de comer para comprar um par de sapatos. As pessoas ganham, acham por aí. Sapato é descartável para muitos. Mas trocaria o conforto dos pés por um par apertado, na falta de um do número certo. Essa é uma cena que também já se passou no portão de casa, e o jovem que minha mãe também atendeu disse que aceitaria o que viesse e agradeceu, mesmo com os pés oprimidos por dois números a menos.
Não se tratava de proteção. Ali, e em tantos outros casos (que passam por todas as classes e condições sociais, dos pés apertados e sem opção às bolhas e calos em nome da estética), a questão é de pertencimento, de poder fazer parte da sociedade, do jeito que ela impõe às pessoas, mesmo que sem muito sentido.
Por Aline Moraes
Entry Filed under: social. Tags: apertado, descalço, estética, função, pertencimento, proteção, sapato, social, sociedade, status.
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1.
Mariana De Felice | Junho 16, 2008 at 1:54 pm
Nine, muito bom o texto e muito boa pauta!
Parabéns!
Beijos
Mari
2.
Médici | Junho 16, 2008 at 8:16 pm
Não tem exatamente a ver, mas dizem que, na Inglaterra, é costume enterrar as pessoas descalças. O fato de Paul McCartney estar descalço na capa do Abbey Road ainda fortalece aquelas teses sobre ele estar morto…
3.
Médici | Junho 16, 2008 at 8:19 pm
Outra coisa que me veio à cabeça…
Meu pai conversava com um amigo que acabara de voltar de uma ‘viagem’ a Boston, como imigrante ilegal. Ele falou que andava 15km todos os dias para economizar o dinheiro da condução. Meu pai achou estranho. “Mas assim você gastou mais com tênis do que economizou com condução”. Ele respondeu: “Não, a gente consegue aranjar tênis usado por 2 dólares no exército da salvação…”